Dificuldade de concentrar e de memorizar? não absorve nada. Acontece de uma forma que é difícil de explicar.
Publicado em 24/05/2026
O que a Psicanálise e a neurociência dizem sobre: Dificuldade de concentrar e de memorizar? não absorve nada.
Você está lendo. Os olhos se movem. As palavras estão ali, visíveis, organizadas. E então — em algum momento que você não consegue precisar — percebe que chegou ao fim do parágrafo sem ter absorvido absolutamente nada. Volta. Relê. Tenta de novo. Funciona por alguns minutos. E acontece outra vez.
A maioria das pessoas interpreta isso como falta de disciplina. Ou preguiça mental. Ou alguma deficiência de atenção que deveria ser resolvida com mais força de vontade.
Mas não é isso.
O que está acontecendo quando a mente vai embora durante a leitura é um fenômeno neurobiológico bem documentado — com nome, mecanismo identificado, e causas específicas que nada têm a ver com fraqueza de caráter.
O cérebro que você pensa que tem não existe
A maioria das pessoas opera com uma imagem do próprio cérebro que é, no mínimo, otimista. Uma espécie de unidade coerente, racional, que decide o que fazer e depois faz. Você quer focar — então foca. Você quer parar de pensar em algo — então para.
Só que não funciona assim.
O cérebro humano não é uma unidade. É um conjunto de sistemas com velocidades diferentes, agendas diferentes, e acesso muito desigual à consciência. E quando você tenta focar em algo — ler, estudar, trabalhar em algo que exige concentração —, você está colocando um desses sistemas para trabalhar enquanto os outros continuam rodando em paralelo.
O sistema que você usa quando tenta focar se chama Rede Executiva Central. Depende principalmente do córtex pré-frontal — a região mais 'nova' do cérebro evolutivamente. É sofisticado, poderoso, capaz de raciocínio abstrato, planejamento e autorregulação.
Mas não trabalha sozinho. E frequentemente não ganha as disputas internas.
A rede que ativa quando você tenta se concentrar
Em 2001, um neurocientista chamado Marcus Raichle publicou um artigo que confundiu muita gente na época. Ele e sua equipe estavam estudando o que acontece no cérebro em repouso — quando a pessoa não está fazendo nada em particular — e descobriram algo inesperado.
O cérebro em repouso não descansava. Pelo contrário: certas regiões consumiam mais energia em repouso do que durante tarefas cognitivas ativas.
Raichle chamou esse conjunto de regiões de Default Mode Network — a Rede de Modo Padrão. E o que ela faz quando ativa é revelador: processa memórias autobiográficas, projeta cenários futuros, resolve conflitos emocionais não elaborados, rumina sobre preocupações.
O problema — e aqui está o ponto central — é que essa rede ativa especificamente quando você tenta focar em algo externo. Como se houvesse uma tensão estrutural entre o foco dirigido e o modo padrão, com o cérebro oscilando entre os dois sem que você perceba.
Quando você está lendo e a mente vai embora? Foi a DMN que assumiu. Ela considerou algo interno mais urgente do que o texto na sua frente. E o texto continuou passando pelos seus olhos — mas você não estava mais lá.
Raichle, M.E. et al. (2001). A default mode of brain function. PNAS, 98(2), 676-682.
O sequestro que acontece antes de você perceber
Existe outro mecanismo envolvido. Mais rápido. Mais antigo. Mais difícil de interceptar.
A amígdala — uma estrutura do tamanho de uma amêndoa no sistema límbico — recebe informações do ambiente externo e interno através de uma via que é mais rápida do que a que chega ao córtex pré-frontal. Isso significa que, diante de qualquer coisa que ela avalie como relevante — uma ameaça, uma preocupação, algo emocionalmente carregado —, ela dispara antes que o raciocínio consciente entre na jogada.
O que é relevante para a amígdala? Qualquer coisa que aprendeu a associar com perigo ou com importância emocional. Uma mensagem não respondida. Uma preocupação financeira. Uma conversa que ficou mal resolvida. Uma sensação de que algo está errado, mesmo sem forma clara.
Nenhuma dessas coisas é ameaça física. Mas o sistema nervoso não faz essa distinção de forma limpa. E quando a amígdala está levemente ativada — mesmo por algo que você nem estava pensando conscientemente —, ela consome recursos do córtex pré-frontal. Os mesmos recursos que você precisaria para manter o foco.
O resultado prático: você tenta ler, mas algo emocionalmente carregado em segundo plano rouba a atenção de formas que você não percebe. A leitura fica automática. A retenção cai. E você atribui ao cansaço ou à falta de disciplina o que na verdade é um sequestro atencional por estados emocionais não processados.
LeDoux, J.E. (2015). Anxious. Viking Press. NYU.
Por que a ruminação destrói a atenção
Ruminação — a tendência de ficar circulando pelos mesmos pensamentos, preocupações e situações sem chegar a resolução — tem consequências neurobiológicas mensuráveis.
Estudos usando neuroimagem funcional mostram que ruminação está associada a hiperatividade da Default Mode Network e a hipoatividade do córtex pré-frontal lateral — exatamente a área necessária para sustentar atenção, inibir pensamentos irrelevantes e manter foco.
Em outras palavras: quanto mais você rumina, menos recursos cognitivos ficam disponíveis para qualquer coisa que exija concentração. É um ciclo que se auto-alimenta — a ruminação compromete o pré-frontal, que seria necessário para interromper a ruminação.
E a parte que complica tudo: a ruminação raramente é uma escolha consciente. O sistema entra nesse modo. E às vezes você só percebe quando alguém pergunta se você está bem e você cai em si.
O que está por baixo — e o que de fato ajuda
Existe um dado que muda a perspectiva sobre tudo isso.
Damasio, da Universidade do Sul da Califórnia, passou décadas estudando a relação entre emoção e cognição. E chegou a uma conclusão que contrariava o que a maioria dos cientistas acreditava: não existe cognição eficiente sem regulação emocional. As duas coisas são inseparáveis.
Isso significa que a dispersão atencional frequentemente não é um problema de atenção. É um problema de estado emocional. O que está desregulado por baixo — preocupação crônica, conflito não elaborado, tensão sem nome — compromete a atenção de formas que nenhuma técnica de foco vai resolver se o estado subjacente não for endereçado.
Na prática, o que ajuda de verdade não é sempre mais disciplina. É entender o que está competindo com a atenção. É reduzir o barulho de fundo — emocional, digital, relacional — que deixa a rede de modo padrão cronicamente ativa. É criar condições neurobiológicas que permitam ao pré-frontal funcionar.
Sono. Exercício. Redução de hiperestimulação digital. Espaço para processar o que está acontecendo internamente. Relações que regulam em vez de ativar. Isso não é autoajuda. É neurobiologia aplicada.
Uma coisa concreta para começar
Antes de começar a estudar ou a ler algo que exige atenção, reserve 3 a 5 minutos para escrever — sem organização, sem filtro — tudo que está circulando na cabeça. Preocupações, tarefas pendentes, emoções difusas, pensamentos soltos.
Isso não é ritual. É descarga da memória de trabalho. O cérebro carrega ativamente o que não foi externalizado — e esse carregamento consome exatamente os recursos que você precisaria para focar.
Quando o que está em segundo plano encontra uma forma de saída — mesmo que seja apenas papel —, a rede de modo padrão tem menos urgência de processá-lo durante a leitura. E o espaço para foco real aumenta.
Não resolve tudo. Mas é um ponto de partida que tem base neurobiológica real. E que não exige mais força de vontade — exige entendimento do que está acontecendo.
Esse é o primeiro nível do que vamos explorar. Nos próximos artigos: como o passado opera no presente sem que você perceba, por que certas experiências ficam sem palavra e continuam interferindo, e o que a neurociência diz sobre o que de fato muda o cérebro.
Créditos do autor
Psicanalista Clínico
Especializado em Neurociência e Comportamento.
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